02/08/2021

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Teste de gênero acende debate antes das Olimpíadas, e Érika Coimbra quebra silêncio. Entenda o fato!

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Do Zigzagdoesporte.com.br por Globo Esporte.com

No início de dezembro, a ONG Human Rights Watch divulgou um relatório de 127 páginas no qual exortou entidades esportivas internacionais, como o COI (Comitê Olímpico Internacional) e a World Athletics (federação internacional de atletismo), a impedir que sejam feitos exames de gênero em atletas mulheres da elite, sobretudo àquelas vindas do hemisfério sul.

O documento lançou luz sobre um problema que, na verdade, existe há muito tempo. Do início do século 20 até as Olimpíadas da Cidade do México, em 1968, cada federação internacional e o COI tinham a prerrogativa de escolher quais mulheres deveriam se submeter aos testes para verificação de feminilidade.

Érika Coimbra, medalhista olímpica do vôlei — Foto: Ulisses Mendes

Érika Coimbra, medalhista olímpica do vôlei — Foto: Ulisses Mendes

As escolhidas, muitas vezes, eram obrigadas a permitir que um comitê de médicos inspecionasse seus órgãos genitais. A partir dos Jogos do México, os testes passaram a ser obrigatórios e aos poucos se tornaram menos invasivos, com amostras de saliva e sangue. Ainda assim, todas as mulheres classificadas para as Olimpíadas tinham que ser testadas.

A situação chegava ao absurdo de as testadas – e aprovadas – receberem uma carteirinha, chamada entre as próprias atletas de “carteira rosa”, na qual se comprovava que eram, de fato, mulheres. A dificuldade em lidar com as atletas intersexo no esporte resultou em uma história de discriminação e constrangimento.

O problema é que a biologia não divide homens e mulheres de forma tão simples como o esporte propõe. Alguns indivíduos são intersexo porque desenvolvem naturalmente características de ambos os sexos por várias razões, como genética ou hormonal, por exemplo.

Desde o ano 2000 o COI decidiu abandonar a obrigatoriedade dos testes, mas eles ainda existem em algumas modalidades. Entre elas, a World Athletics, que é entidade-alvo do relatório da Human Rights Watch.

Erika pela seleção nos anos 1990 — Foto: Reprodução

Erika pela seleção nos anos 1990 — Foto: Reprodução

Em 2018, a federação internacional de atletismo baixou o limite de testosterona para mulheres que disputam provas entre as distâncias de 400 e 1.600 metros. Por causa desta regra, as três medalhistas dos 800m nas Olimpíadas do Rio, em 2016, passaram pelo teste e agora estão proibidas de competir nos Jogos de Tóquio nas supracitadas distâncias – são elas a sul-africana Caster Semenya, Francine Niyonsaba, de Burundi, e a queniana Margaret Wambui.

As três se recusam a tomar medicamentos para reduzir os níveis de testosterona que produzem naturalmente. Semenya, bicampeã olímpica e tricampeã mundial, tentou anular a regra na Corte Arbitral do Esporte, mas o pedido foi negado. Agora, ela tenta se classificar para as Olimpíadas de Tóquio nos 200m, prova que nunca havia disputado antes.

A World Athletics afirmou, procurada pela reportagem do Fantástico e do ge, que a regra não foi baseada em estereótipos de raça e gênero. Mas que é um meio necessário pra preservar a justiça em competições femininas.

Segundo o advogado especialista em direito desportivo Thomaz Mattosd e Paiva, que integrou de 2017 a 2019 a comissão legal da World Athletics, a categorização de atletas é falha, mas a inserção de um limite de testosterona visa a dar mais paridade à competição.

– É justo que essas mulheres tenham que passar por cirurgias irreversíveis só para que elas possam competir? Nos últimos 10 anos, fala-se mais sobre o corpo da Semenya do que sobre o quanto ela é uma atleta fabulosa – disse o pesquisador da Human Rights Watch Kyle Knight, que participou da elaboração do relatório.

Caster Semenya com a medalha de ouro na Rio 2016 — Foto: Eric FEFERBERG / AFP

Caster Semenya com a medalha de ouro na Rio 2016 — Foto: Eric FEFERBERG / AFP

– Existem casos de violência sexual e de abuso nessa política de testes. Algumas mulheres foram submetidas a médicos que as tocaram sem motivo algum, só por curiosidade ou para tentar entender como era a anatomia do corpo. E isso não tem nada a ver com elegibilidade para o esporte – emendou.

Também procurado pelo ge, o COI declarou que está elaborando novas diretrizes para o tema, que conciliem ciência, justiça esportiva e direitos humanos, mas elas só devem entrar em vigor depois dos Jogos Olímpicos de Tóquio.

– Essas mulheres não sabem o que está acontecendo, estão completamente vendidas de informação quando alguém diz: você não pode mais competir, tem algo no seu sangue que te faz diferente e você não é bem vinda aqui – complementou Knight.

Enquanto o debate se arrasta ao longo de décadas, as mulheres tratam suas cicatrizes e tocam suas vidas. Duas delas toparam falar com o ge sobre os constrangimentos pelos quais passaram ao serem reprovadas em testes de gênero aos quais foram submetidas: a ex-jogadora de vôlei Érika Coimbra, medalhista olímpica com a seleção brasileira nos Jogos de Sydney 2000, e a meio-fundista Annet Negesa, de Uganda.

Antes das Olimpíadas de Londres, em 2012, um exame de sangue de Annet mostrou que ela tinha uma quantidade elevada de testosterona, o principal hormônio sexual masculino, mas que também é produzido por mulheres.

– Eu recebi a ligação do meu agente dizendo que eu não estava autorizada a ir para as Olimpíadas porque havia algum problema no meu sangue. E aí tive que fazer mais e mais exames, mas nunca me davam os resultados – comentou a atleta de Uganda, que no ano anterior aos Jogos de Londres havia sido semifinalista nos 800m no Mundial de Daegu, na Coreia do Sul.

Annet Negesa no Campeonato Mundial júnior de 2010 — Foto: Chris Trotman/Getty Images

Annet Negesa no Campeonato Mundial júnior de 2010 — Foto: Chris Trotman/Getty Images

Para voltar a competir, Annet disse ter sido orientada a retirar os testículos internos que possuía, mas sem saber que seria por meio de uma cirurgia delicada e com consequências para práticas esportivas.

– Quando acordei [da cirurgia], vi os cortes no meu corpo. Eu realmente não sabia o que estava acontecendo. Me disseram que foi uma cirurgia simples e que eu voltaria a competir em algumas semanas. Mas demorei quase oito anos para voltar. Não me disseram que eu ficaria estéril e que teria que me tratar pelo resto da vida – complementou a atleta.

Agora com 28 anos, ela voltou a treinar, mas na Alemanha, país onde pediu. Em Uganda, membros da comunidade LGBT são perseguidos.

– Me atiraram na cova e pareceu que eu não podia mais voltar para o esporte – concluiu.

Érika hoje tem 40 anos e está aposentada do vôlei. Mas, ainda jovem, conheceu o constrangimento de passar por um teste de gênero. Ela tinha 17 quando recebeu a notícia antes de um Mundial júnior de vôlei.

– Eu fui fazer um teste de gênero, toda a equipe, todas as meninas faziam e eu, no meu caso, era uma menina, nasci menina, tudo certo em mim como mulher e de repente te dão uma bomba dessa: te avisam que você não passou no teste de gênero. Eles [federação internacional, que era quem fazia o teste] não me preservaram ali. Soltaram para a imprensa, não esperaram o meu tempo de ter informação, de fazer o teste novamente. De repente eu sou um ET, um avatar, sei lá. Porque eles estão me levando para me revirar – disse a ex-atleta.

Na verdade, Érika tinha uma doença. Era portadora da Síndrome de Morris, que a faz produzir mais testosterona do que o normal para uma mulher.

– Foi meio desesperador em um primeiro momento porque eu falei: eles vão me revirar da cabeça para cima. Eu falava para minha mãe ‘mostra para eles mãe’, chorando. ‘Olha a minha certidão de nascimento, não tem nada de errado’ – contou.

Sebastian Coe, presidente da federação internacional de atletismo — Foto: Andy Lyons/Getty Images

Sebastian Coe, presidente da federação internacional de atletismo — Foto: Andy Lyons/Getty Images

Após tratamento e cirurgia, três anos depois ela saiu dos Jogos Olímpicos de Sydney com uma medalha de bronze no peito.

– Aí de repente eu comecei a ser a menininha bonitinha da seleção, a musa. Todo mundo amava e as pessoas esquecem, mas a sua dor não é esquecida – observou.

Érika ficou 23 anos sem falar publicamente sobre o assunto até aceitar participar dessa reportagem. Ela espera que com seu depoimento possa ajudar outras atletas que passam por isso.

– Se eu puder ajudar ou informar alguém de alguma forma, eu estou me ajudando. Acho que estou ajudando aquela menininha de 17 anos a se livrar de todo esse preconceito, medo, dor e insegurança. Libertando de tudo que eu carreguei a minha vida inteira sem ninguém saber que isso era uma doença e não uma escolha minha – desabafou, emocionada.

Medalhista olímpica e atleta consagrada, ela agora quer ser mãe.

– Eu vim ao mundo com má formação do útero, então a gente pensa em adotar uma criança. Em vez de eu ter essa tristeza daquela menina que perdeu a esperança de poder ser mãe naturalmente, eu ganhei uma outra esperança. Porque eu sei que uma vida precisa de mim.

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