Lado B da Copa: Dzeko, o diamante bósnio que sobreviveu ao inferno*

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or Gustavo Hofman, André Donke, Guilherme Nagamine e Jean Santos, do ESPN.com.br.

Mãe: “Hoje, não, Edin!”

Filho: “Por que não, mãe, deixa eu ir jogar bola?”

Mãe: “Já disse, Edin, hoje, não!”

Embora não exatamente com as mesmas palavras, a ordem dada no diálogo acima, recriado a partir de uma situação real, muito provavelmente salvou a vida de Edin. Naquele mesmo dia, momentos mais tarde, uma nova bomba explodiu nas ruas de Sarajevo e matou vários dos garotos que jogavam futebol perto da casa da família Dzeko.

Foto: Getty Images/Arte: Gabriel Lucki/ESPN.com.br

LADO B DA COPA
Dzeko viveu quase quatro anos sob os bombardeios em Sarajevo

“Meu instinto materno salvou meu filho”, contou a mãe Belma, em fevereiro de 2011, em entrevista ao jornal inglês “Daily Mail”. Era normal o garoto e seus colegas baterem bola nas vias públicas da cidade, ainda que sitiada. Naquele dia, ele, contra a própria vontade, não foi.

Atualmente a principal estrela da seleção da Bósnia-Herzegovina e uma de tantas no Manchester City, Dzeko é um sobrevivente do inferno no qual se transformou seu país, mais especificamente Sarajevo, durante a Guerra da Bósnia [leia mais abaixo], considerada a mais sangrenta da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Quando o conflito estourou, nos primeiros dias de abril de 1992, o garoto Edin, nascido em 17 de março de 1986, tinha exatos seis anos e 19 dias de vida. Era, assim como tantas outras em Sarajevo e nas demais cidades da Bósnia, uma criança. Criança que por quase quatro anos teve de conviver diariamente com sons de bombas, rajadas de tiros e sirenes.

Já no início, a guerra atingiu Dzeko. A casa em que ele, pai [Midhat], mãe e irmã [Merima] moravam, em Brijesce, subúrbio de Sarajevo, foi destruída após um ataque sérvio, e a residência dos avós, no centro, passou a ser a do quarteto também.

“Minha infância é passado agora. Foi difícil, mas não fui o único. A guerra aconteceu na Bósnia entre meus seis e dez anos, então era difícil sair e fazer qualquer coisa ou ter uma vida normal. Mas eu era jovem… Já acabou, e agora não quero mais falar muito sobre isso”, afirmou o atacante em fevereiro de 2011, quando foi contratado pelo Manchester City.

A imprensa inglesa queria saber mais sobre a história do bósnio. E o diário “The Telegraph” conseguiu entrevistar Armin Colakovic, amigo de infância do então novo reforço do time menos tradicional de Manchester.

“Está vendo ali? Era o front da guerra, bem ao lado da nossa escola. Nossos pais tinham medo de nos deixar sair, mas íamos jogar bola. Jogávamos por 15 minutos, então ouvíamos as sirenes anti-bombas, o som dos zumbidos das balas, e todos corriam o mais rápido que podiam para os prédios. Isso não aconteceu uma ou duas vezes apenas, era o nosso modo de viver.”

Um diamante na ‘cidade dos cemitérios’
Em 1995, Sarajevo já era conhecida como a cidade dos cemitérios, dada a enorme quantidade para sepultamento de seus cidadãos, principalmente das milhares de vítimas do conflito contra os sérvios. Era o resultado da impossibilidade de se desenvolver, durante a guerra, espaços mais afastados para tal.

Getty

Em ataque rápido, Dzeko ficou livre na frente de Casillas e abriu o placar para o City
Dzeko no City, que pagou por ele 27 milhões de libras em 2011

Assim, os lugares para os enterros foram improvisados entre casas, no centro, ao lado de escolas, no meio de parques, ao redor de estádios. Do alto, os diversos pontos brancos se destacam. Herança do sofrimento. Neste mesmo ano, Jusuf Sehovic trabalhava no Zeljeznicar, maior clube da Bósnia, e foi incumbido de selecionar novos talentos já projetando o pós-guerra.

Edin e o amigo Armin estavam entre os recrutados, mas o período para o primeiro provar seu talento foi longo. Era, inclusive, mantido na base do time mais por seus tamanho e força que por seu desempenho em campo.

A estreia na equipe profissional aconteceu em 2002, quando ele tinha 16 anos. Jogando como meio-campista, o menino alto e desingonçado fez cinco gols em 40 jogos e virou alvo da torcida; por seu corpanzil, ganhou até o apelido de “Cloc”, algo como “um grande pedaço de madeira”.

“O que não entendiam era que ele cresceu 14 centímetros em um ano, então sua coordenação sofreu. Dizia para ele não se preocupar, que tudo voltaria”, afirmou Sehovic ao periódico “Daily Mail”.

Dada a situação, a oferta de 25 mil euros do Teplice, da República Tcheca, por Dzeko em 2005 fez muitos no clube bósnio acaharem que àquele negócio seria como ganhar na loteria. No novo país, o começo também não foi fácil, com ele tendo até sido emprestado ao pequeno Ústi nad Labem. Mas a persistência deu resultado.

Dzeko anotou 16 gols em 43 partidas com a camisa do Teplice em dois anos – por muito pouco não defendeu a seleção tcheca – e chamou a atenção do Wolfsburg, da Alemanha, que desembolsou quatro milhões de euros por ele em 2007. Na nova equipe e sob o comando do técnico Felix Magath, o atacante de 1,93m fez 111 gols em 66 duelos, protagonizou uma superdupla ofensiva com o brasileiro Grafite e ajudou o clube a conquistar o Campeonato Alemão de 2007/2008.

No início de 2011, já desejado por vários clubes importantes, Dzeko é comprado pelo Manchester City por 27 milhões de libras. O menino que anos antes poderia ter morrido jogando bola não virou mais um corpo na vastidão de cemitérios de Sarajevo e tornava-se, então, um  dos atacantes do time que viria a ser campeão inglês em 2011/2012.

A Guerra da Bósnia
Intolerância, nacionalismo exacerbado e religião. São estes os três pilares que levaram à Guerra da Bósnia, que, oficialmente, começou em 5 de abril de 1992 e acabou em 29 de fevereiro de 1996. Para entendê-la, é preciso antes voltar alguns anos na história e também se atentar à divisão histórica da região que forma o país.

Com a queda do muro de Berlim, na Alemanha, em 1989, e o consequente enfraquecimento do socialismo, a Iugoslávia, uma república formada por federações socialistas, começou a desintegrar-se em junho de 1991, quando Eslovênia e Croácia declararam independência. Na sequência, Macedônia e Bósnia-Herzegovina fizeram o mesmo, mas, no último caso, a Sérvia não aceitou.

Por quê? O cenário existente ajuda a entender. No censo de 1991, o último antes do conflito, a Bósnia tinha sua população dividida assim: bósnios, 43,7%; sérvios, 31,3%; croatas, 17,3%; iugoslavos, 5,5%.

A relação entre identidade étnica e religião também era muito forte: 90% dos bósnios são muçulmanos; 93% dos sérvios-bósnios são cristãos ortodoxos; e 88% dos croatas-bósnios são católicos.

Os líderes nacionalistas Radovan Karadzic, bósnio-sérvio, e Slobodan Milosevic, sérvio, tinham como objetivo fazer com que todos os sérvios espalhados pelos territórios que formavam a Iugoslávia passassem a viver em um mesmo país. Queriam um estado “puro”. Começou então o chamado Cerco a Sarajevo, no qual tropas sérvias tomaram os arredores da cidade por quase quatro anos, período em que os habitantes foram proibidos de deixarem o local.

Túnel da vida, o fim da guerra e o discurso de Dzeko
Diariamente, os cidadãos que viviam na capital bósnia tiveram de lidar com a ameaça de perderem a própria vida e/ou verem amigos e familiares simplesmente explodirem. Foi uma das maiores atrocidades já vistas, com os militares sérvios bombardeando diversos alvos civis, como filas de pessoas para a coleta de água no rio e até mesmo a maternidade.

No fim do conflito, quase toda construção de Sarajevo tinha algum dano, como uma marca de tiro, por exemplo. A Biblioteca Nacional teve 90% de seu acervo queimado. No geral, a cidade foi reconstruída, mas ainda existem muitos prédios em ruínas por conta da falta de dinheiro para a reforma.

A única rota para entrada e saída de alimentos e pessoas a Sarajevo não controlada pelos sérvios foi um túnel de 850 metros cavado sob o aeroporto da cidade, protegido pelas tropas da ONU e que recebia ajuda de instituições humanitárias. O exercito sérvio, por causa de pressões internacionais, teve de poupar o local mesmo após descobri-lo; também imaginou que a população bósnia desistiria, após meses sitiada, da luta, o que ajudou muitos a fugirem por ali.

O fim da Guerra da Bósnia se deu por meio de acordo alinhavado em novembro de 1995 na Base Aérea Wright-Patterson, perto de Dayton, no estado norte-americano de Ohio, e formalmente assinado em 14 de dezembro daquele ano, em Paris, na França. Daí os nomes Acordo de Dayton e/ou Protocolo de Paris, que estipulou a formação de duas entidades territoriais na Bósnia e tentou – ainda sem sucesso, na prática -, criar uma nação multiétnica.

Assim, a Bósnia, legalmente, é separada entre a Federação da Bósnia-Herzegovina, que abrange a parte central do país e praticamente todo o litoral, e a Republika Srpska, que concentra a maior parte dos sérvios que vivem por lá e não aceitam a Bósnia como nação.

Reprodução

Mapa da Bósnia
Mapa da Bósnia: a parte amarela é de maioria bósnia; a laranja, de maioria sérvia; a azul, um território independente

Cada lado tem sua própria constituição, governo, administrações públicas, poder judiciário e legislações. As organizações nacionais ficam sob o comando do Governo, que tem alternância de líder a cada oito meses entre um bósnio (representante de 48% da população), um croata (11%) e um sérvio (37%). A tensão é constante.

Getty

Ibisevic fez o gol da classificação da Bósnia à Copa
Ibisevic, nascido em Vlasenica, parte sérvia, fez o gol da classificação da Bósnia-Herzegovina para a Copa do Mundo

Já no City, Dzeko certa vez visitou uma escola ao lado do companheiro de clube Aleksandr Kolarov, sérvio, e mostrou que, ao menos para ele, o que vale é o respeito as diferenças. Não importam quais sejam.

“Tento fazer algo para mudar. Pretendo ir a escolas na Bósnia, onde ainda há muito a se fazer. Muitas estão divididas, como se fossem duas escolas em uma, com bósnios de um lado e croatas do outro. Vou lá e tento persuadi-los a se misturarem, porque a guerra levou a desentendimentos e ódio, então as coisas são difíceis…”

“… Tento mostrar a crianças que a origem do nome não é importante, assim como se somos muçulmanos ou católicos. Quero mostrar que o mais importante é ser um bom homem, uma boa mulher. Vejam Aleksandr. O que é importante para mim é que alguém seja uma boa pessoa, e ele é um bom homem. Não é importante se ele vem da Sérvia, apesar do que aconteceu entre os países. Não importa se ele é da Croácia, de Gana, da Bósnia ou da Inglaterra.”

*Texto adaptado/editado por Jean Pereira Santos, André Donke e Guilherme Nagamine a partir do original, escrito pelo blogueiro do ESPN.com.br e comentarista dos canais ESPN Gustavo Hofman como capítulo, de nome O Diamante Bósnio, do livro “Quando o futebol não é apenas um jogo”, da Editora Via Escrita e cujo lançamento será no dia 28 de abril na Livraria da Vila, no Shopping Higienópolis, na Zona Oeste de São Paulo.    

A seção Lado B da Copa tem como objetivo contar histórias ligadas ao Mundial que ultrapassam os limites do campo e da bola e terá 18 edições (esta é a oitava), sempre com uma novidade a cada terça-feira até 10 de junho, a dois dias da abertura da Copa.

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