Os bastidores do UFC Jacksonville: 1000 testes, 32 lutas e uma louca jornada; confira.

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Do Zigzagdoesporte.com.br por Marc Raimondi e Brett Okamoto para o espn.com.br

Marcus Gaethje estava jantando com seu irmão gêmeo, Justin. Era 8 de maio, e os Gaethjes e alguns dos treinadores de Justin estavam no Chart House, um restaurante de frutos do mar à beira do mar em Jacksonville, na Flórida (EUA).

Em 24 horas, Justin seria um dos integrantes da luta principal do UFC 249, o primeiro grande evento esportivo em quase dois meses. O card iria acontecer em uma vazia VyStar Veterans Memorial Arena e teria Justin disputando com Tony Ferguson o título interino do peso leve do UFC. Marcus estaria no corner do irmão.

Enquanto estavam na mesa, o grupo viu as noticias que eles achavam que colocaria o evento em risco. Ronaldo Jacaré Souza, brasileiro escalado para as preliminares do UFC 249, testou positivo para o coronavírus juntamente com dois membros de sua equipe.

O UFC soltou um comunicado dizendo que Jacaré e seus colegas estavam assintomáticos e foram removidos do hotel e isolados em outro lugar.

“Justin disse ‘cara, espero que não cancelem o evento'”, relembra Marcus. “Ninguém nos ligou antes ou algo do tipo, descobrimos como todo mundo, na internet. Então, estávamos meio que enlouquecendo, tentando entender o que estava acontecendo.”

Dana White, presidente do UFC, disse que o 249 foi o maior desafio que a organização já encarou. Originalmente marcado para 18 de abril no Brooklyn, Nova York, com um main event entre Ferguson vs o campeão Khabib Nurmagomedov, o evento mudou de locais e configurações de luta por causa da pandemia de coronavírus, até se estebelecer na escalação para Jacksonville. E agora isso, menos de 24 horas antes da primeira luta.

Mas apesar de ter finalizado o jantar de Gaethje, a notícia de Jacaré não afetou a luta. A luta de Jacaré com Uriah Hall foi cancelada, e o card seguiu normalmente. Gaethje foi espetacular ao bater Ferguson em um nocaute técnico no quinto round para pegar o cinturão interino em uma das melhores lutas do ano.

O UFC 249 não era mais um desafio que White precisava resolver. Ele agora o descrevia como um sucesso sem precedentes, um testamento as precauções que sua organização tomou durante a pandemia e um exemplo para outros esportes seguirem. Mas era só o começo de uma histórica sequência de oito dias que ainda teriam outros dois cards com lutas e momentos memoráveis e bastidores controversos que combinaram para formar um legado único da experiência do UFC Jacksonville.

Terça, 5 de maio

Calvin Kattar e seu técnico, Tyson Chartier, estavam fazendo check in nos seus quartos no hotel Hyatt Jacksonville quando Rob Font, companheiro de Kattar e lutador do UFC, apareceu com informações urgentes sobre outro técnico em outra equipe.

Poucos minutos antes, a equipe de Kattar havia feito dois testes separados para a COVID-19. Um para anticorpos – não o vírus ativo – que produz resultados em quinze minutos e outro que tinha que ser mandado para laboratório.

Kattar, Chartier e Font testaram negativo para o anticorpo. O outro técnico testou positivo, de acordo com Chartier.

Um representante do UFC explicou para o grupo que eles iriam resolvar um outro quarto e o técnico que testou positivo precisava se isolar lá até o diagnóstico do laboratório voltar.

“Nós não podíamos entrar no quarto dele”, disse Chartier. “Podíamos falar pelo telefone, mas nunca entrar no quarto.”

“Ele ficou pedindo comida, ligando para o serviço de quarto. A maior parte do tempo ele estava jogando videogames porque tinha trazido seu PS4 com ele. Foi uma semana tranquila para ele.”

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“O UFC lidou com tudo perfeitamente, mas era apenas o desconhecido”, disse Chartier. “Foram 18 semanas para chegarmos aonde estávamos. A incerteza de como o vírus funciona, como os testes funcionariam, não sabíamos. Tudo era novidade.”

Quarta-feira, 6 de maio

Henry Cejudo disse que em menos de 15 minutos após chegar no hotel já tinha um cotonete em seu nariz para fazer o exame. Além disso, o campeão do peso leve descreveu tudo como “pacífico”.

Durante as semanas normais de lutas do UFC, o hotel está completamente tomado por fãs, membros das famílias dos lutadores, companheiros e jornalistas. Não existia muita gente dessa vez. A maioria das pessoas que passavam estavam de máscara. Aqueles envolvidos com o evento eram obrigados a passar por exames diários que incluíam checagem de temperatura.

“Era mais calmo”, disse Cejudo. “Obviamente a gente sabia que ia lutar, mas não parecia semana de luta. Era deserto, o que na realidade traz um pouco de paz. Não tem fãs esperando pela gente. Não tem gente de fora vindo falar conosco.”

“Para mim, essa é a grande diferença, além óbvio de colocarem um cotonete no meu nariz.”

O teste com cotonete não foi muito popular entre os lutadores.

“Essa m** no nariz é horrível’, disse Francis Ngannou. “Foi a segunda vez que eu fiz. Não é nada bom. É muito estranho. Acho que prefiro tomar um soco do que fazer essa m**.”

Para Donald “Cowboy” Cerrone, o hotel servia apenas para ser testado. Ele dormiu no próprio trailer.

Cerrone saiu de seu racnho perto de Albuquerque, Novo México, no dia 5 de maio e dirigiu 26 horas dentro de seu trailer, com algumas paradas. Com luta marcada com Anthony Pettis, Cowboy ficou na direção o tempo todo. Junto com ele estavam seus técnicos John Wood, Jafari Vanier e Rodrigo Donoso.

Quinta-feira, 7 de maio

Àquela altura, todos os lutadores do UFC 249 já estavam em Jacksonville. O UFC fez um media day virtual para repórteres que não foram até a Flórida. Os lutadores se revezaram na frente de um laptop em uma cadeira que era higienizada entre cada entrevista.

“Em qualquer outra luta você vai para o local de treinos e está lotado, uns 500ºC”, disse Chartier. “Você sente que não consegue treinar. Sente que todo mundo está te observando treinar. Metade do tempo você acaba treinando no seu quarto.”

Foi exatamente o que o locutor do octógono do UFC Bruce Buffer fez em seu quarto no Hyatt.

“Fiquei no meu quarto”, disse. “No máximo andava à beira do mar sozinho, com uma máscara e tudo, mas eu mais treinava todo dia. O que eu fazia era, a sala que eu tinha no meu quarto, mudava a mobília e então treinava sozinho ou com um treinador que estava comigo em chamada de vídeo, todo dia. Nem fui até a academia. Não deixei nem as camareiras entrarem. Peguei toalhas extras. Queria estar o mais seguro possível.”

Sexta-feira, 8 de maio

Todos os envolvidos foram testados para a COVID-19 com os cotonetes nas pesagens. Jacaré passou na passagem, vestindo uma máscara e – diferente do resto, luvas. Minutos depois, fez uma encarada promocional com Hall, mas não chegou perto dele. Na sequência ele cumprimentou Dana com a mão e foi visto em um vídeo interagindo com Fabricio Werdum logo após as pesagens.

Durante as encaradas, o time de Kattar recebeu a notícia que o teste voltou negativo do laboratório e o técnico que estava em quarentena foi liberado para estar no corner.

Jacaré não teve a mesma sorte.

Naquela tarde, o UFC anunciou que Jacaré e dois de seus companheiros testaram positivo para o coronavírus e estavam fora do card. Jacaré, que havia avisado o UFC que alguém de sua família poderia ter sido exposto ao vírus, estava fora da luta com Hill. Mas o evento ainda continuaria. White disse que “o sistema funcionou.”

“Fiquei muito triste de não lutar no UFC 249, mas quero que vocês saibam que assim que os médicos me liberarem quero remarcar minha luta com Uriah Hall e dar o show que todo mundo espera”, disse Jacaré pelo Instagram.

Sábado, 9 de maio

Essa foi mais que uma luta cancelada para Hall. Ele havia se mudado de Las Vegas para Dallas em novembro para lutar na academia Fortis MMA, e seu aluguel venceu no dia que ele tinha viagem marcada para o Brooklyn para o card de 18 ed abril. Quando a luta foi adiada, Hall mudou para a academia e morou lá até viajar para uma luta que seria cancelada.

Hall estava tomando café da manhã com dois de seus técnicos quando foi Cowboy chegou para conversar.

“Cowboy chegou, olhou para Uriah e falou ‘se minha luta for boa, deveríamos lutar quarta ou sábado'”, disse Cooper Neill, fotógrafo que estava na sala. “Uriah olhou para ele achando que era brincadeira, mas Cowboy disse ‘não, é sério. Podemos lutar no peso médio’.”

“Eu conheço Cowboy e ele não estava fazendo por show ou por fama. Ele estava genuínamente se oferecendo para lutar com Uriah porque sabia que Uriah precisava de uma luta.”

Naquela noite, na primeira luta do UFC desde o card sem público no Brasil em 14 de março, Ryan Spann venceu Sam Alvey por decisão dividida. Na sequência, o comentarista Joe Rogan surpreendentemente subiu ao octógono para entrevistar Spann. O UFC havia falado que não haveria entrevista no octógono para preservar o distanciamento social. Syaif Saud, técnico de Spann, ficou feliz que Rogan foi do mesmo jeito.

“Ele estava dando carinho para Ryan”, disse Saud. “Ryan teve seu momento. Nós fomos a primeira equipe no primeiro esporte a vencer desde o início da pandemia. Sempre seremos nós.”

Gaethje venceu o evento principal para deixar montada uma luta de unificação com Khabib. Foi a maior vitória da carreira de Marcus, conquistada sem torcida e com seus treinadores usando máscaras.

“A entrada foi, com certeza, a maior diferença para mim”, disse Gaethje. “Eu falo para todo mundo, não tem nenhum sentimento que se equipar a sair e ver a torcida. É um sentimento que você não pode copiar em nenhum situação. Então, lutar sem os fãs foi meio ‘ok, isso é legal… uhhh, não é a mesma coisa’. Pareceu meio coreografado, como se fosse um treinamento para a entrada real.”

“Quando você entra e tem a torcida, você vê os rostos, as pessoas tentando encostar em você, você ganha uma injeção de adrelina. Quando entramos foi só vazio, nem sei explicar.”

Terça, 12 de maio

Hall não foi o único a experimentar a tristeza de ter uma luta cancelada.

Marvin Vettori tinha uma luta marcada para 21 de março em Londres. Ele voou da Califórnia até lá para ter o seu card cancelado. Voltou aos Estados Unidos com a esperaça de lutar alguns dias depois em outro evento. Esse card também foi cancelado. Vettori passou 22 horas no ar em dois dias para nada.

Na manhã seguinte ao desembarque, Vettori descobriu que sua luta havia sido cancelado e ele havia feito outra viagem em vão.

“Uma m** de um pesadelo, cara”, disse Vettori.

Nervos e frustrações se juntaram na manhã do hotel em 13 de maio. Vettori disse que se aproximou de Roberson, que seria seu adversário, e seus técnicos para perguntar o que havia acontecido.

Durante a discussão, Roberson falou que havia ouvido Vettori dizer durante uma entrevista que Roberson estava com medo de lutar com ele. Vettori confirmou: “Eu falei ‘sim, penso isso mesmo’.”

Vettori achou que Roberson estava fugindo da luta e começou a lançar ataques verbais profanos. Os dois tiveram que ser separados pela segurança do UFC.

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Luta cancelada no UFC quase acontece em saguão de hotel com abundância de insultos e palavrões entre Vettori e Roberson

Via Instagram @ drcapodaglio | Roberson foi tirado do card devido a problemas médicos e Vettori não gostou nada

“Perdi o temperamento ali. Estou um pouco chateado por como reagi. Não muito com o Roberson, mas com os seguranças do UFC, eles são os melhores”, disse Vettori.

Quarta-feira, 13 de maio

O retorno do UFC deu início ao fim de semana de mais trabalho para os apostadores e para as casas de aposta desde o meio de março, e Brian Kelleher teve uma participação disso.

Pelos penas, Kelleher nocauteou Hunter Azure com um lindo gancho de esquerda no segundo round.

Na sequência, White o retirou do octógono. Azure havia ganho o 1º round, e Kelleher havia virado uma grande zebra nos sites de apostas ao vivo.

“Um amigo colocou uma aposta em mim – uma grande”, disse Kelleher. “E logo depois da aposta eu nocauteei o cara. Ele não me falou quanto apostou, mas eu falei para o Dana, ‘Dana será que posso ganhar uma pequena porcentagem disso?'”

A tentativa não funcionou, mas Kelleher levou para casa U$ 50 mil pelo prêmio de luta da noite.

“Assim que eu o acertei e ele caiu, consegui ouvir os comentaristas (Jon Anik e Paul Felder) falarem ‘ooh'”, disse Kelleher. “Sabe, quando eles gritam? Ouvi isso claramente e fiquei tipo ‘cara eles sabem que eu peguei ele, ele está acabado agora’.”

Os barulhos ao redor do octógono eram claros a ponto de Carla Esparza e Greg Hardy admitirem que ouviram Daniel Cormier, que estava comentando, falar e ajustaram suas estratégias dessa maneira.

Sexta-feira, 15 de maio

Urijah Faber subiu na balança e bateu o peso de 69kg. Poucos sabiam o que estava acontecendo. O membro do hall da fama do UFC não estava com luta marcada.

Na manhã antes de seu aniversário de 41 anos, Faber perdeu 3,5kg para caso precisasse lutar com Marlon Vera. Song Yadong, um prospecto chinês da academia de Faber, estava tendo problemas com o visto e não era certeza para a luta.

Não foi necessário. Song foi liberado na sexta-feira, mas só após o corte de peso de Faber e a subida na balança.

Sábado, 16 de maio

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UFC tem semana insana, e Dana White faz balanço: ‘Sabia que íamos conseguir, sabia que seríamos os primeiros’

Presidente do Ultimate se orgulhou dos três eventos realizados em plena pandemia

Mark Coleman entrou nos bastidores. Ele estava chateado que seu pupilo, Matt Brown, havia sido nocauteado durante as preliminares para Miguel Baeza. Enquanto Brown estava sendo examinado pelo médico, a repórter do UFC Megan Olivi se aproximou de Coleman para entrevistá-lo.

Coleman estava confuso. Seu cara havia perdido. Sobre o que eles queriam conversar? Olivi falou que ela repassaria as questões com ele e falou para Coleman sentar perto de uma TV.

Não havia entrevista. Na tela veio o anúncio de que Kevin Randleman, grande amigo e parceiro de treinos de Coleman, seria induzido no hall da fama do UFC neste ano. Randleman morreu em 2016, e desde então Coleman fazia campanha por isso. Ambos já venceram o cinturão dos pesos pesados. Coleman já é parte do Hall da Fama.

Quando ele percebeu o que estava acontecendo, Coleman se desmanchou em lágrimas.

“Eu estava muito confuso e demorei provavelmente, não sei, uns 30 segundos para perceber o que estava acontecendo”, disse Coleman. “Estava apenas domiando por emoções. Grande momento. Estava feliz como podia estar, mas estava realmente emocionado. Chorei mesmo. Porque era meu irmão.”

Emoções tomaram conta do main event. Walt Harris estava lutando pela 1ª vez desde a morte de sua enteada de 19 anos, Aniah Blanchard, que foi assassinada no final de 2019.

Harris quase venceu Alistair Overeem no primeiro round, mas Overeem conseguiu se recuperar e venceu por nocaute técnico no segundo.

Com Harris ainda de joelho, Overeem se ajoelhou ao lado dele para oferecer consolo. Um emocionado Harris agradeceu o UFC pela oportunidade.

“Vocês não viram o final do ‘The Big Ticket'”, disse Harris. “Irei para casa, me recuperarei emocionalmente e fisicamente, e voltar mais forte que nunca.

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