16/04/2024

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Transexual relata amor ao Palmeiras e perseguição homofóbica no estádio; confira.

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Mas lembra muito bem do dia em que, por ser torcedora do Palmeiras, ela quase morreu. Foi há mais de dez anos, em um jogo contra o Cruzeiro no Pacaembu.

Adriano Wilkson Do UOL, em São Paulo.

Torcedores exibem orgulho LGBT em exposição de fotos

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Julia Polly (de verde) torce para o Palmeiras e participou de campnha de combate à homofobia no futebol Max Rocha

Faz tanto tempo que Julia Polly não se lembra exatamente quando se tornou torcedora do Palmeiras. Mas lembra muito bem do dia em que, por ser torcedora do Palmeiras, ela quase morreu. Foi há mais de dez anos, em um jogo contra o Cruzeiro no Pacaembu.

Membros de uma torcida organizada mineira estavam trocando provocações com seus rivais alviverdes quando avistaram Julia, perceberam que ela era diferente e começaram a gritar: “Mata o viado! mata o viado!”

Eles correram atrás dela pelas ruas do bairro, e ela precisou pular muros e cercas para se salvar. Acabou no terreno de uma casa vizinha ao estádio, desesperada com o medo da morte. Foi salva pela moradora da casa.

Ela tem certeza que só saiu viva dali porque a polícia foi acionada e conseguiu protegê-la da fúria homofóbica de seus perseguidores.

Julia Polly, transexual, cabelereira, 28 anos, tatuou nas costas o sobrenome que ela escolheu para marcar sua passagem no mundo e diz “que vai pra porrada” quando ofendem sua liberdade sexual e identidade de gênero. “Mas naquele dia eram quatro caras. Se eu fosse para cima, não estaria aqui hoje”, afirma.

Ela começou a ir ao Parque Antartica e ao Pacaembu levada pelo pai, mas isso foi antes de Julia assumir ser quem é. Aos 13 anos, quando o pai descobriu que ela “se montava” em festas da cidade, a garota precisou sair de casa porque, disse o pai, filho dele era melhor ser morto do que viado.

Julia deixou para trás a camisa do Palmeiras, esvaziou a mochila da escola e recolheu as poucas coisas que tinha para tentar a vida no centro da cidade, onde não conhecia ninguém. Vagou pela rua, por albergues, por orfanatos e conseguiu, de um jeito ou de outro, se ajeitar.  Muito tempo depois, assumida, transformada e orgulhosa, voltou a frequentar os estádios.

Mas nunca mais junto com seu pai.

Julia é uma das centenas de pessoas que aceitaram ser fotografadas exibindo amor pelo seu clube e orgulho de sua orientação sexual.

Quarenta e sete fotos de gente como Julia – gays, lésbicas, transexuais, travestis e drag queens – estão em exposição no prédio da prefeitura de São Paulo para mostrar que a diversidade sexual é uma realidade das arquibancadas e dos gramados brasileiros.

A ideia foi de um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo que estuda o esporte. “O objetivo também é provocar nas pessoas um estranhamento e uma reflexão e, talvez, engajá-las no combate à homofobia”, disse Flavio de Campos, professor e curador da exposição.

As fotos ficarão no prédio da Prefeitura, no centro de São Paulo, até o dia 7 de janeiro. Depois disso, elas estarão expostas na biblioteca Mario de Andrade. A ideia é que a exposição chegue a outras cidades do país.

A Prefeitura acredita que se trata de um passo importante para levar a discussão sobre homofobia ao seio da torcida. Eles já entraram em contato com clubes de São Paulo para promover ações de combate ao preconceito nos estádios. “Estamos conversando para que no ano que vem haja um amistoso entre drag queens e os másters do Corinthians”, disse Alessandro Melchior, coordenador de LGBT da Prefeitura.

De acordo com ele, o Corinthians é, entre os grandes de São Paulo, o clube mais aberto a esse tipo de discussão.

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