16/04/2024

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Lado B das Olimpíadas: Sem grana para pagar advogado, Rebeca virou modelo. Entenda o fato.

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Gustavo Faldon, do ESPN.com.br.

Dando continuidade ao quadro “Lado B das Olimpíadas”, que segue quinzenalmente até a véspera dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, com histórias que vão muito além do esporte, o ESPN.com.br traz mais um personagem nesta semana. Figuaras históricas dentro e fora das competições, eventos que marcaram época. Em sua segunda edição, o Lado B das Olimpíadas contará a história de Rebeca Gusmão, ex-nadadora brasileira que conquistou quatro ouros no Pan-Americano de 2007, mas depois teve as medalhas retiradas após ser banida do esporte pelo uso de anabolizantes.

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Rebeca comemora um dos seus ouros no Pan de 2007
Rebeca comemora um dos seus ouros no Pan de 2007

Ao atender o telefone, minutos antes do treino na academia, ela já demonstra um tom suave e tranquilo na voz. Hoje com 30 anos, Rebeca Gusmão já se recuperou das polêmicas, do duro período em que foi banida da natação por conta do doping e até da depressão.

Excluída das piscinas pelo Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) pelo uso de anabolizantes, a agora ex-nadadora respira novos ares. Rebeca Gusmão trabalha como personal trainer em Brasília (DF), dá palestras motivacionais e faz até ensaios sensuais. O corpo já está bem diferente daquele dos tempos de atleta, quando aos 14 anos disputou o Pan-Americano de 1999 ou então ganhou 4 medalhas de ouro no Rio de Janeiro em 2007.

As medalhas, retiradas dela por conta do doping, e a participação nos Jogos Olímpicos de Atenas-2004 não representam a maior emoção da vida da ex-nadadora, que hoje em dia serve de inspiração e até ajuda idosos a superar o medo das piscinas.

Veja abaixo a entrevista de Rebeca Gusmão ao ESPN.com.br na série “Lado B das Olimpíadas”.

Quais são suas lembranças do Pan de 2007?
Eu acho que o Pan foi um evento marcante na minha vida porque foi o primeiro grande evento em que eu competi em casa. Estava sempre acostumada a competir fora. Isso foi o que mais me marcou, a minha família e a torcida a favor.

Foi um choque de realidade ter disputado a Olimpíada de 2004 em termos de nível técnico?
O Pan é uma competição de nível técnico alto, mas nada é comparado a uma Olimpíada. O Canadá e Estados Unidos mandam o time B no Pan-Americano. Mas o Pan ainda está um nível abaixo do Mundial e Olimpíada

Como foi o período em que você foi acusada de doping e teve as quatro medalhas do Pan retiradas?
Foi um período muito difícil. Primeiro porque eu era muito nova, tinha 22 anos. A falta de maturidade, de entender o que está acontecendo. Foi uma barra muito difícil. Tanto que fiquei anos aí brigando. Fui absolvida pela justiça brasileira e fui condenada lá fora. Foi sem dúvida o momento mais difícil da minha vida. Tirar de você a coisa que você sabia fazer a vida toda não é fácil.

DIVULGAÇÃO/ ARQUIVO PESSOAL

Rebeca Gusmão faz ensaios como modelo
Rebeca Gusmão faz ensaios como modelo

Você se arrepende de algo que fez?
Eu não me arrependo de algo que eu fiz. Eu me arrependo de não ter feito, por falta de maturidade. Eu acho que a Justiça tarda, mas não falha. Eu tenho minha consciência tranquila, isso é o mais importante. Eu só queria ter metade da maturidade que tenho hoje naquela época porque tenho certeza que seria diferente.

Alguns outros atletas foram pegos no teste antidoping na natação e não receberam a mesma punição que você. Você vê injustiça no seu caso?
A questão doping eles escolhem. É um jogo de xadrez. Se você não tem dinheiro e não entrar no jogo, você está fora do tabuleiro. A gente pegou um evento de visibilidade enorme no Brasil, muitas pessoas não sabiam quem eu era. As pessoas acham que eu apareci do nada com um físico daquele tamanho. Eu sempre fui muito forte. Existe muito dinheiro envolvido. Existem as pessoas que não se vendem. Mas tem uma coisa que é a vaidade. Infelizmente existe muito isso no esporte. Acho que no caso de outros atletas que até foram pegos com a mesma substância que eu e foram absolvidos é a prova disso. Na época eu não tinha R$ 250 mil para pagar um advogado. Se eu tivesse, estaria hoje treinando para o Pan-Americano do Canadá.

Você passou por depressão?
Eu tive uma depressão forte. Eu engordei muito, cheguei a pesar 104kg e ao mesmo tempo eu tinha preocupação com a minha família porque minha mãe também entrou em depressão. Tudo na minha casa girava em torno da natação, do que eu fazia. Eu tinha que me concentrar naquele momento em me manter forte. Quando eu precisava de colo, eu tinha que estar como uma rocha, mas queria desmoronar. Eu acordava 4h30min da manhã e ia para a casa dos meus pais para pegar o jornal, para eles não verem. Na hora do noticiário da hora do almoço ou da noite, eu procurava estar na casa deles para não deixar eles verem porque o dia que eu vi uma repórter na televisão falando que eu podia pegar de 3 a 5 anos de prisão…escutar a voz da minha mãe no fundo, chorando, foi duro. Desde aquela época meu pai e minha mãe não assistem mais televisão, não leem jornal, não vêm noticiário. Eu até achei engraçado porque quando fui na casa deles outro dia eu falei “Pai, você viu o avião que caiu?” e ele respondeu: “Que avião?”. Eles se desligaram do que acontece no mundo.

A depressão mata, eu quase morri duas vezes por causa dela. A primeira foi por causa da natação. Eu fiquei muito mal, várias vezes na minha cabeça passou fazer alguma besteira. A outra foi quando acabou meu casamento, foi uma depressão mais profunda. Emagreci bastante. Eu tive uma overdose de medicação. Eu cheguei a ficar 3 dias em coma. Depois que eu acordei desse coma parece que acendeu a luz na minha vida. Eu ainda uso a medicação até hoje, mas numa dose menor. Antes eu precisava ficar dopada o dia todo. Hoje não, uso da mesma forma que um diabético precisa da insulina.

DIVULGAÇÃO/ ARQUIVO PESSOAL

Rebeca Gusmão também é personal trainer
Rebeca Gusmão também é personal trainer

Como foi o momento em que você ficou sabendo que não poderia mais competir, em 2009?
Foi uma decepção muito chocante e absurda. Eu fiz aquilo minha vida toda, era o que mais amava. Em qualquer Justiça, criminal, cível, ninguém toma pena perpétua. Eu sofri uma pena de morte. O que é difícil entender é isso. Por que o cara que mata sai na rua de novo, no meio da sociedade? E se eu tivesse feito alguma coisa errada, já que não fiz e a Justiça brasileira provou isso, por que eu sofri essa pena? Eu não posso falar para você como é a defesa até porque a mídia me prejudicou. Do outro lado do jogo, eu vejo que realmente foi absurdo.

Como está sua vida hoje em dia?
Hoje eu estou trabalhando como Personal Trainer, sou modelo também, dou palestras. Hoje eu estou fazendo uma coisa que eu nunca pensei que fosse fazer. Descobri que mais gratificante que ganhar uma medalha, representar seu país, é você ajudar as pessoas a conseguir seus objetivos. Tenho alunos que eram obesos e hoje são magros. Essa semana me emocionei com uma aluna minha de 66 anos que tinha pavor de água e ela entrou, mergulhou, nadou comigo. São coisas que realmente você vê que valem muito mais de uma medalha. Eu estou amando o momento que estou vivendo.

Como é seu trabalho como modelo?
Eu faço ensaios fotográficos para marcas, para campanhas, coleções. E dou palestras motivacionais. De tudo que eu passei, superei. Eu acho mais legal que eu recebo pelo menos 40, 50 mensagens por dia de pessoas que têm depressão e que mandam a minha foto, eu gorda e depois magra e falam “Eu colei a sua foto na minha geladeira. Você é minha inspiração”. Eu hoje me vejo como uma pessoa que toca muito mais as pessoas do que quando eu era atleta.

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