23/04/2024

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Psiquiatra prevê futebol de capacete no futuro e alerta: raça de Álvaro Pereira é indício de confusão mental. Entenda o fato.

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Lucas Borges, para o ESPN.com.br.

São Paulo x Criciúma, 13ª rodada do Campeonato Brasileiro. Álvaro Pereira se enrosca com jogador da equipe catarinense no meio campo e despenca de cabeça no chão. Desacordado, é aguardado pela ambulância já posicionada na beira do gramado do Estádio do Morumbi. Mas ele não vai tomar o caminho do hospital. Ainda na maca, o uruguaio se levanta, faz sinal de negativo para os médicos que sugeriam que ele deveria ser substituído e volta à partida, para delírio dos torcedores que se orgulham da raça e da determinação do camisa 6.

A cena já havia sido vista um mês e meio antes, em 19 de junho, durante a Copa do Mundo, contra a Inglaterra, quando o atleta foi acertado por uma joelhada na cabeça – perdeu a consciência, brigou com os médicos e continuou jogando – e se repetiria em São Paulo x Cruzeiro, 21ª rodada do Brasileirão, desta vez para infelicidade do volante Denilson, que levou cabeçada de Pereira, seu companheiro de equipe.

“O Álvaro Pereira é um individuo que é confundido por essa impetuosidade como atleta raçudo, tem muita garra, a torcida adora, aplaude. Essa chamada garra nada mais é do que um estado de confusão mental. Depois que bate a cabeça, ele fica nervoso, irritado, fica confuso, você percebe uma confusão, uma irritabilidade e ele quer voltar a campo: não obedece a árbitro, não obedece a médico. Isso já é um distúrbio de comportamento do atleta e está indicando, ‘você tem que sair’.”

O alerta é feito pelo Dr.Franklin Ribeiro, psiquiatra esportivo com passagem pelo próprio São Paulo, especialista em lesões por concussão, causadas por pancadas que chacoalham o cérebro e podem provocar sérios danos mentais, entre eles a Encefalopatia Traumática Crônica – ETC -, um dia conhecida como ‘Doença do Pugilista.’

O caso do defensor uruguaio, diz o médico, demonstra como esse tipo de problema é ignorado pelos jogadores de futebol profissional.

DIOGO SALLES

Alvaro Pereira, São Paulo, HQ (uso ESPN FC)
Quadrinho exalta a ‘garra’ de Álvaro Pereira

“É um caso paradigmático o do Álvaro Pereira, pra gente pensar em como agir com um atleta desse porte. Imagine a torcida, tirar o Álvaro Pereira, vão acabar om o Muricy, ‘onde já se viu, um cara raçudo’. Essa raça é um sintoma da concussão já numa fase dois.”

Uma descoberta de setembro deste ano pode ser o marco da nova consciência no mundo da bola. Imortalizado como capitão do primeiro título mundial da seleção brasileira, em 1958, na Suécia, o ex-zagueiro Bellini há anos era tratado do mal de Alzheimer. A gradativa perda de memória seria a prova da suposta enfermidade. Ao estudarem seu cérebro, especialistas concluíram que o problema era outro.

“A importância dessa descoberta é muito grande. Bellini tinha Encefalopatia Traumática Crônica – ETC , como cabeceava fortemente, cabeceava 30% a mais que os outros zagueiros da época, disputava mais as bolas, passou a ter essas alterações aos 68 anos e aos 83, faleceu. Ele estava sendo tratado de Alzheimer e não tinha Alzheimer. É o sexto jogador de futebol no mundo que morre diagnosticado com ETC, o primeiro brasileiro.”

Golpes constantes na cabeça fazem o corpo produzir uma proteína chamada TAU, que ao se acumular, se solidifica e mata as células nervosas. Segundo o Dr.Franklin Ribeiro, muitos jogadores podem ter falecido vítimas do ETC sem o diagnóstico correto e muitos outros podem vir a sofrer do mesmo mal.

“Às vezes levam meses, anos, décadas, pra que a doença se manifeste, O que aconteceu com o Bellini, com os avanços da tecnologia nós poderemos talvez detectar precocemente, essas alterações através de exames neuropsicológicos se faz em 30, 40 minutos ou através de exames de imagens para permitir ao atleta que ele possa escolher entre continuar jogando ou não. Isso não é feito de jeito nenhum aqui no Brasil. Nem todos clubes têm psicóloga esportiva, quanto mais neuropsicóloga. Não se pode permitir que um atleta que bata a cabeça e fique mais de 15 minutos confuso volte a campo. Isso acontece com frequência e sem nenhuma fiscalização. Qualquer perda de consciência, o individuo caiu, fecha os olhos, fica estalado, com paralisia de movimentos, mesmo que dure segundos, sai fora do campo.”

“Chegou a hora de dar mais atenção ao assunto, é o momento para que dirigentes, treinadores, próprios atletas, pais de futuros atletas tomem consciência da importância da concussão e da orientação que temos que dar o atleta. A vida não é só o jogo, continua depois da carreira. No momento, se não for bem assessorado, o atleta pode optar por continuar, é o interesse do clube, do treinador, mas é ele quem tem que decidir. É uma doença grave, incurável, intratável e lentamente progressiva, vai piorando cada vez mais. Muitos atletas que ganham milhões de dólares acabam morrendo por suicídio, por uma negligencia das direções do esporte mundial.”

O risco de concussões é um tema mais discutido nos Estados Unidos, aonde os choques em esportes como futebol americano e hockey acontecem com maior frequência. Mas até mesmo no ‘primeiro mundo’ há negligência. “Desde janeiro deste ano, se aplica nos EUA um exame que mostra a atuação da proteína TAU, isso custa algum dinheiro, mas é 0,1% do que a liga americana de futebol americano – NFL – arrecada em seu custo global. E eles não têm interesse nenhum em fazer esses exames em todos os atletas.”

GETTY IMAGES

Petr Cech defende o Chelsea, da Inglaterra, desde 2004
Cech passou a usar proteção após lesão em 2006

O alto índice de envolvimento de atletas de futebol americano em distúrbios sociais – agressões a familiares, dependência química e alcoólica, suicídio etc – é explicado pelo ETC, garante Ribeiro.

A Fifa tem dado os primeiros passos para tratar a concussão como assunto majoritário. Segundo a entidade que organiza o futebol mundial, cerca de 13% de todas as contusões da Copa do Mundo estão relacionadas às regiões da cabeça e do pescoço – das quais uma em cada sete lesões são concussões cerebrais

Em 2006, estabeleceu-se que cotoveladas intencionais contra a cabeça do adversário devem ser punidas com cartão vermelho. Com isso, a incidência de lesões graves na cabeça em jogos de futebol teria sido reduzida pela metade.

A partir do meio deste ano, jogadores e jogadoras de clubes da primeira divisão masculina e feminina da Suíça estão passando por uma avaliação neurológica e neuropsicológica, assim como por uma avaliação do sentido de equilíbrio e do movimento dos olhos. Caso os jogadores sofram uma lesão ao longo da temporada, serão novamente avaliados e os resultados serão comparados com o exame de base.

“Não é só demência, pode ter alteração na atenção, na concentração, dores de cabeça crônicas, irritabilidade, distúrbio de comportamento e só mais tarde apresentar alterações de memória. Temos que observar a evolução desses atletas que jogaram em 1950, 60, 70. Às vezes, no início da concussão, o individuo tem sintomas mais leves e depois vai ficando mais agressivo, progressivamente vai tendo alterações motoras, de comportamento, vai tendo mais dificuldades para caminhar, para falar”, afirma o médico.

O Dr.Franklin Ribeiro prevê que em breve uma partida de futebol seja disputada com 22 atletas em campo usando capacetes, como acontece no futebol americano. Alguns futebolistas, como o goleiro do Chelsea Petr Chech, já utilizam este tipo de proteção.

“Seria interessante que essas medidas fossem tomadas também no futebol. O que ocorre é que já foram testados alguns capacetes e eles precisam ser aperfeiçoados para a proteção ser perfeita. O que se tem hoje não impede que continue acontecendo essas lesões. É um trabalho para os físicos se aperfeiçoarem. Um dia, muito provavelmente, todos os jogadores serão obrigados a usar capacete. Isso seria o ideal para evitar a ETC.”

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