21/07/2024

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E se fosse Maguila? Brasileiro negociava com Tyson antes de zebra histórica. Entenda o fato.

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Maurício Dehò Do UOL, em São Paulo.

A trajetória de Maguila

Maguila posa para foto ao lado de Mike Tyson, considerado um dos maiores boxeadores de sua geração. A luta entre eles quase saiu, mas as negociações entre os empresários do brasileiro e Don King não chegaram a concretizar o duelo Paulo Cercari / Folha Imagem

Há 25 anos, o mundo do esporte entrou em choque com uma das maiores zebras já vistas. Mike Tyson, à época um nocauteador implacável, invicto e mais jovem campeão dos pesos pesados da história, enfrentou James Buster Douglas, um desconhecido norte-americano de cartel irregular e que viveu uma série de dramas antes de ser colocado contra o melhor de seu tempo, diante de 40 mil pessoas no Japão. Buster venceu. Um nocaute no 10º assalto. Mas imagine só se quem estivesse do outro lado fosse Adilson Rodrigues, o Maguila? Isso foi uma possibilidade.

Maguila pode não ter conseguido cumprir a meta de enfrentar Mike Tyson, mas no fim da década de 1990, seu auge em termos de resultados, ranking e investimento, esteve muito perto de concretizar este combate. E não se trata de exagero. O ranking do brasileiro e sua série de vitórias fizeram com que ele virasse um dos lutadores cotados a desafiar o então campeão, uma hipótese cogitada pelas revistas de boxe na época e negociada diretamente com Don King. Mas, uma decisão hoje considerada errada de Luciano do Valle, um dos empresários do sergipano, e a derrota para Evander Holyfield em 1989 enterraram as chances.

Em 1989, Maguila chegou ao seu ranking mais alto da carreira, com o segundo lugar no Conselho Mundial de Boxe. O brasileiro tinha 35 vitórias e duas derrotas, com chances de liderar a lista, mas ficou atrás de Evander Holyfield, também em ascensão, principalmente após vencer Michael Dokes por nocaute.

O brasileiro era empresariado pela Luqui, uma empresa chefiada por  Quico Leal e Luciano do Valle – que comandava as transmissões de boxe na Band, muito populares com Maguila como principal estrela. Com cinco nocautes em 1988 e mais duas vitórias em 1989, a equipe apostou tudo nas negociações com Don King para enfrentar Tyson, depois de norte-americano bater Frank Bruno.

“Havia a promessa de lutar com o Tyson, até levaram o Maguila para a luta contra o Frank Bruno. O sonho era fazer a luta no Maracanã, eles estavam doidos para isso e o Don King também”, relembra Wilson Baldini, jornalista especialista em boxe do jornal O Estado de S. Paulo.

A grandiosa, mas complicada ideia de sediar a luta no estádio do Maracanã dificultou a realização do combate, além do fato de o sergipano ser desconhecido e pouco contribuir nas vendas, principalmente diante de um Tyson tão arrasador como vinha sendo.

A grande polêmica no caso foi Luciano do Valle e Quico decidirem que, sem Tyson, Maguila enfrentaria o número 1 do ranking, Evander Holyfield. Levar esta opção adiante foi tão questionável, que Miguel de Oliveira, técnico de Maguila até aquele momento, resolveu se afastar.

“Eu nunca fui a favor desta luta, porque não havia necessidade nenhuma. Era ibope de televisão”, disse Miguel de Oliveira, ao livro “Em 12 Rounds”. “Era preferível lutar diretamente com o Tyson do que fazer essa luta. Se perdesse, perdia para o campeão, mas se ganhasse seria campeão do mundo. Pô, é o cara, o Tyson… Mas e daí? Negociávamos com ele, e na defesa seguinte ele foi nocauteado, pelo Buster Douglas. Quem era o Buster Douglas?”

Sem Miguel, Maguila foi treinado por Angelo Dundee, que fez fama ao lado de Muhammad Ali. O combate contra Holyfield foi marcado para julho de 1989, e Maguila surpreendeu com um ótimo primeiro assalto, considerado por muitos como vitorioso para o brasileiro. Mas a tática de Dundee de ir para cima do norte-americano se mostrou falha. No segundo round veio o nocaute.

Para Baldini, faltou calma à equipe de Maguila para aguardar a chance ideal. “O Luciano não teve jogo de cintura. Faltou paciência. Poucas vezes ele teve uma atitude tão errada quanto aquela – pelo menos é assim que vejo. Se eles tivesse esperado, o Maguila poderia ser o rival de Tyson no lugar de Douglas, ou poderia ter enfrentado o próprio Douglas por cinturão mais tarde, em 1990”.

Maguila ainda teve um outro grande combate no exterior contra George Foreman, sendo nocauteado no segundo round, e depois disso focou sua carreira em fazer lutas pelo Brasil, com duas longas séries de vitórias antes de se aposentar com derrota para Daniel Frank, em 2000.

Tyson x Douglas

Uma das amostras de que Maguila era uma realidade na disputa de cinturão é a entrada de Buster Douglas como rival de Tyson. O lutador costumava fazer apenas preliminares dos eventos liderados pelo astro, e era o sétimo no ranking da conceituada Ring Magazine. Para se ter uma ideia, as casas de apostas davam Tyson como favorito de 42-1 – a cada dólar apostado, 42 seriam pagos a quem jogasse na vitória de Douglas.

Com 29 vitórias, quatro derrotas e um no contest – Tyson tinha 23 anos, com 37 vitórias, sendo 33 por nocautes -, ele não era uma atração para vendas, então Don King resolveu levar a luta para o Japão, tendo a certeza de que os 40 mil lugares disponíveis seriam vendidos com facilidade. Era, na verdade, um aquecimento para que o campeão enfrentasse em seguida Evander Holyfield, uma rivalidade que só foi solucionada em 1996 e 1997.

Douglas ainda tinha outros problemas que aumentavam sua condição de zebra. Casos de fora do ringue. A mãe do norte-americano morreu 23 dias antes do combate. A mãe de seu filho  passava por uma doença renal. E um resfriado minava sua condição física.

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