25/06/2024

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‘Manoel da Lupa e Valdir Rocha me pediram para assumir a culpa do erro deles’, diz Sestário

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Osvaldo Sestário, advogado da Portuguesa na Justiça Desportiva até o julgamento do meia Héverton, deve ser o último a depor no Ministério Público de São Paulo. Ele está entre os principais personagens investigados pelo órgão estadual, que tenta desvendar a escalação irregular na última rodada do Brasileiro, que rebaixou o clube para a segunda divisão.

Irritado com as recentes declarações de Valdir Rocha, funcionário do jurídico do time paulista, que o acusa de mentir para a imprensa e de não ter passado as informações sobre a suspensão do atleta, Sestário decidiu contar a sua versão ainda mais detalhada sobre as conversas que teve com o agora ex-amigo e ex-colega de trabalho.

“[Em dezembro] Me pediram mais uma vez para que eu ajudasse eles e assumisse a culpa. Me prometeram que iam me ajudar, falando da minha conduta. E eu disse que eu não poderia fazer, porque eu ia assumir um erro que eu não cometi, seria ruim para a minha carreira e também porque não ajudaria a Portuguesa. Eu até entendo esse lado deles, até pelo desespero da situação”, diz Sestário, para o ESPN.com.br.

“Uma coisa que eu ainda não tinha falado, porque eu estava preservando a amizade que eu sempre tive com o Valdir, até pela intimidade que ele tinha com a minha família, mas agora vou falar porque ele também está falando um monte de coisas, é que quando eu passei o resultado para ele, ele brincou e disse: ‘o Héverton não tem problema, esse está indo embora, não joga nada, podia pegar dez ou vinte partidas’ e falou para eu focar em colocar o Gilberto em campo”, revela.

Sestário garante que ajudará o Ministério Público de São Paulo a terminar a investigação e diz que vai convencer o promotor de que está falando a verdade e de que Valdir Rocha está mentindo.

“O próprio promotor entrou em contato comigo. E eu pedi para ele falar com o meu sócio, que está tratando com ele. Nós estamos agendando uma visita, para que eu vá lá e seja ouvido. Acho importante isso, vou colaborar com tudo que o Ministério Público quiser. O promotor disse que já tem toda a história, só falta me ouvir”.

“São dez anos trabalhando para esse clube sem problemas de comunicação. O Valdir teve a oportunidade de falar no STJD sobre tudo isso e não falou. Agora ele vem a público e fala tudo isso. Tem um monte de coisas novas em relação ao depoimento dele. Lá ele disse que eu não errei. Eu vou demonstrar para o promotor com alguns exemplos. O técnico disse que não sabia nem mesmo que o Héverton seria julgado. Quando um jogador vai ser julgado e a sua pena mínima é de quatro jogos, o atleta acaba nem participando de treinos, de coletivo. Vou mostrar como as coisas funcionam na prática para ele ver”, completou.

Veja toda a entrevista na íntegra

O Dr. Valdir Rocha, do jurídico da Portuguesa, te enviou um e-mail no dia 3 de dezembro avisando sobre o julgamento do Héverton (que seria no dia 6). Como foi isso?
Isso era praxe entre a gente. Eles receberam e me mandaram. Quando chegava isso, o nosso procedimento era de conversar no seguinte sentido: no julgamento do Gilberto (dia 2 de dezembro), eu pedi que ele viesse porque ele era importante para a equipe. Na verdade, quem faz essa avaliação é o clube, se vai mandar ou não. No caso do Gilberto, eles mandaram. No caso do Héverton, não. Fiz a defesa normal e durante o julgamento (do Héverton) o Valdir me ligou algumas vezes para saber do (pedido de efeito suspensivo) do Gilberto (que havia sido julgado e condenado dias antes), e eu logo já passei o resultado do Héverton. Uma coisa que eu ainda não tinha falado, porque eu estava preservando a amizade que eu sempre tive com o Valdir, até pela intimidade que ele tinha com a minha família e comigo, a gente tinha algumas brincadeiras, me chamava de ícone da Justiça Desportiva, essas coisas. O que eu nunca tinha falado, mas agora vou falar até porque ele também está falando um monte de coisas, é que quando eu passei o resultado para ele, ele brincou e disse: ‘O Héverton não tem problema, esse está indo embora, não joga nada, podia pegar dez ou vinte partidas’ e falou para eu focar em colocar o Gilberto em campo.

Você falou com ele no sábado?
Eu estava trocando de celular no sábado. Assim que eu vi que tinha algumas chamadas dele, quando eu instalei o chip no meu aparelho, nós conversamos um minuto ou um pouco mais. Ele queria saber se eu tinha novidades sobre o Gilberto. E eu não tinha nada.

Bom, aí o Héverton jogou no domingo e você ficou sabendo que tinha alguma coisa errada na segunda-feira?
Não, não. Eu fiquei sabendo na terça-feira, dia 10. Por volta das 17 horas, um amigo meu me ligou perguntando se eu tinha escalado o Héverton. Eu disse que não sabia. Eu liguei para a advogada que estava comigo no julgamento, que eu já mencionei algumas vezes, e pedi para ela ver. Ela me retornou e disse que sim.

E como você ficou?
Na hora, eu fiquei em estado de choque. Sentei, tomei ar. Fiquei muito mal. São dez anos trabalhando para um clube que você sabe das dificuldades que tem nas decisões do árbitro, tribunais. Então, eu liguei para o Valdir Rocha. Perguntei sério, ele até brincou com esse negócio de ícone e tal, e eu falei que era sério e perguntei se eles tinham escalado o Héverton. E ele ficou alguns segundos de um jeito, repetindo o nome do Héverton, deu aquela titubeada e a ligação caiu. Eu tentei por três, quatro ou cinco vezes, mas não completava. Na sexta eu consegui e ele já estava ao lado do presidente, no viva voz.

O que eles disseram?
E aí veio aquele desespero, eles perguntaram se a decisão não tinha sido errada, eu disse que não. É claro que eu também não estava com essa calma toda que eu estou te contando. Mas eles estavam preocupados e eu também, e começamos a pensar no que fazer. O Valdir apelou, falou que tinha três filhos e que a torcida da Portuguesa é violenta. Eu também não quis falar isso antes para preservar a amizade que eu tinha até então com ele. Mas como ele anda falando que eu estou mentindo, resolvi contar a versão completa. Ele, então, falou dos filhos dele. O Manoel da Lupa também falou que a torcida era violenta. Imagina três pessoas conversando sobre uma notícia bombástica. Ficamos pensando em mil ideias.

Quais ideias?
Ah, desde o que fazer com o recurso, se eu não poderia assumir a culpa, eles sugeriram isso, mas eu disse que juridicamente não funcionaria. Foi ligação em cima de ligação. No dia seguinte eu vi que tinha uma matéria no seu veículo de comunicação e eu pedi providências ao presidente. Falei que isso não estava correto. A imprensa toda estava me ligando e eu não estava me manifestando e eu disse que não ia falar nada mesmo, porque a gente estava tentando pensar em uma solução para o problema. Eu quis saber o que tinha acontecido, perguntei se houve falha e ninguém falou nada diretamente. Eu fiquei para mim que houve um erro interno. Conversamos sobre isso para um eventual recurso.

Você não quis falar com a imprensa no início…
Eu não me manifestei para a imprensa porque eu queria ter uma palavra em conjunto sobre o que estava acontecendo. Isso foi se estendendo, a Portuguesa chegou a mudar de versão. Até que eu liguei para o presidente e disse que eu ia ter de falar alguma coisa. Ele pediu para eu ajustar com o Valdir o que iríamos fazer. Até chegar o momento em que eu não aguentava mais a pressão, com eles falando que eu tinha errado e eu resolvi ligar para ele e dizer que eu ia me manifestar. Ele me contou então que tinham contratado um colega do Rio e que era para eu ligar para ele e ajustar com ele. Acabou que nem foi ele o advogado e foi o João Zanforlim. E a última vez que falamos foi para eu avisá-lo que eu tinha que falar alguma coisa porque estava sobrando para mim. Eu precisava me defender e eu comecei a falar sobre o caso. Eu posso afirmar que eu nunca mudei a minha versão e a Portuguesa mudou várias vezes.

Essa foi a última vez que vocês conversaram?
Acho que foi essa sim. Nesses dias eles até me pediram mais uma vez para que eu ajudasse eles e assumisse a culpa. Me prometeram que iam me ajudar, falando da minha conduta. E eu disse que eu não poderia fazer, porque eu ia assumir um erro que eu não cometi, seria ruim para a minha carreira e também porque não ajudaria a Portuguesa. Eu até entendo esse lado deles, até pelo desespero da situação. Acho que foi uma das últimas, e eu disse que eu ia falar a minha versão. Depois foi só pela imprensa. Foi isso que aconteceu.

O Ministério Público de São Paulo entrou em contato com você?
O próprio promotor entrou em contato comigo. E eu pedi para ele falar com o meu sócio, que está tratando com ele. Nós estamos agendando uma visita, para que eu vá lá e seja ouvido. Acho importante isso, vou colaborar com tudo que o Ministério Público quiser. O promotor disse que já tem toda a história, só falta me ouvir.

O MP acha que alguém ganhou com isso. O que você acha?
Eu não sei quais provas ele tem. É uma coisa investigativa dele e é o trabalho dele. Eu sempre acreditei que foi uma falha de comunicação. Eu não conseguia acreditar, pelo menos até então, porque parece que agora ele tem provas, naquelas teorias da conspiração. Isso nunca passou pela minha cabeça, não sei se por ingenuidade minha ou por falta de malícia. Eu não consigo ver, até fisicamente, como foi possível fazer isso em tão pouco tempo. Mas se ele tem provas eu acho ótimo e que se puna os culpados.

Você chegou a receber alguma ligação de alguém do Flamengo?
Nunca. Nunca recebi.

E do Fluminense?
Nunca também. Conheço o Mario [Bittencourt], ele é meu amigo, jogamos ‘peladas’ juntos, mas nunca teve nada.

Se o MP quiser seus registros telefônicos e extratos bancários, você está disposto a mostrar?
Assim como eu já mostrei alguns documentos, eu abro o meu sigilo bancário, abro o da minha esposa, das minhas filhas e de quem for preciso para mostrar que não tenho nada com isso.

Bem como suas ligações?
Sim, tudo. O que precisar.

Eles já pediram isso?
Não, oficialmente não.

Sua relação com a Portuguesa agora, não existe?
Eu tenho escutado muito pela imprensa. Mas oficialmente não recebi nada. Meu contrato era até o dia 31 de janeiro. Esse era o décimo ano de contrato. Tem até alguns processos pendentes. Mas oficialmente não houve ruptura.

Há uma contradição entre a sua versão e a do Valdir. Ele diz que você não avisou. Como você acha que vai convencer o MP de que a sua versão é a verdadeira?
Primeiro é que são dez anos trabalhando para esse clube sem problemas de comunicação. O Valdir teve a oportunidade de falar no STJD sobre tudo isso e não falou. Agora ele vem a público e fala tudo isso. Tem um monte de coisas novas em relação ao depoimento dele. Lá ele disse que eu não errei. Agora fala um monte de coisas que vai ter de provar. Eu vou demonstrar para o promotor, que talvez não saiba exatamente como funciona as coisas no STJD, com alguns exemplos. O técnico disse algumas vezes que não sabia nem mesmo que o Héverton seria julgado. Quando um jogador vai ser julgado e a sua pena mínima é de quatro jogos, o atleta acaba nem participando de treinos, de coletivo, nada. Poderia ter até recebido férias. Vou mostrar como as coisas funcionam na prática para ele ver.

Você está tranquilo?
Muito tranquilo. Claro que tudo isso me perturbou muito. Eu sou uma pessoa muito calada, muito na minha. Eu sofri e estou sofrendo muito com isso. Ontem eu te disse que não falaria mais sobre isso, mas aí a gente vê uma pessoa que gozava da minha amizade falando um monte de coisas… Eu entendo que ele está tentando se preservar, mas eu também tenho o mesmo sentimento. É ruim estar o tempo todo com a foto exposta em um site, ter de se explicar o tempo todo. Isso é muito complicado.

Você advoga para muitos clubes. Qualquer pessoa poderia errar, até por ter dois assuntos pendentes. Você assumiria?
Olha, se fosse erro meu, eu seria o primeiro a assumir. O Valdir Rocha fala que era praxe que quando eu não falasse nada era um jogo ou advertência. Se o Gilberto que estava no mesmo artigo do Héverton pegou dois jogos, e ele compareceu no julgamento, não seria muito diferente com o Héverton. Eu lamento que tudo isso tenha acontecido. Acho que ele se concentrou no Gilberto e esqueceu do Héverton.

Você se sente constrangido de ir ao STJD agora?
Não, de maneira nenhuma. Eu já fui lá esse ano, depois do ocorrido, recebi apoio de todo mundo lá dentro. Quem me conhece sabe que não é à toa que eu estou ali. Falam até coisas pejorativas, quando você incomoda as pessoas é normal isso. Claro que tem sempre um abalo, uma vergonha. Tem clube que trocou de diretoria agora e eu tenho que explicar tudo de novo. Mas o que me revigora e me dá força é ouvir as coisas boas.

Com a CBF, alguém te ligou?
Recebi algumas ligações me dando apoio, que eles conhecem meu trabalho.

Quem, por exemplo?
O Virgílio Elíseo foi um deles, faz tempo que eu convivo com ele e ele sabe do meu trabalho.

Com tudo isso, você vai mudar seu método de trabalho?
Olha, a vida é um aprendizado sempre. O que eu coloquei agora é que mesmo advogando há dez anos, mesmo com os usos e costumes, eu a partir de agora vou documentar tudo por escrito.

Você tem mais trocas de e-mails com a diretoria da Portuguesa?
Não, não. Tem um e-mail que o Valdir me mandou no dia depois do fato ocorrido, por volta do meio-dia, para saber sobre a questão de qual a tese a gente iria adotar para um eventual recurso. Até fiquei sabendo agora que tem um recurso, mas não fui eu que fiz.

Por último, você deve entrar na Justiça, né? Quais são as teses que você está levantando?
Vou pedir retratação por muitas coisas que foram faladas pela imprensa, alguns blogs. Vou pedir dano moral, por aquelas pessoas que falaram de mim pejorativamente. Vou pedir também responsabilidade civil e criminal.

Mas contra a Portuguesa tudo isso?
Também contra ela, mas individualmente também. Vou processar um a um.

Falou com a nova diretoria?
Ainda não.

Esse será seu depoimento no Ministério Público?
É, certamente. O que tem de novo aqui são algumas particularidades das minhas conversas. Mas depois que ele, Valdir, vai a público e começa a falar…

Vai levar mais algum documento?
O que for preciso.

 

Fonte: Espn

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