25/06/2024

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Governo pagou livro em que Ary Graça ‘ensina’ cartolas

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Por Lúcio de Castro, especial para o ESPN.com.br.

financiado por dinheiro público. E mostrou que a admiração estatal por suas práticas sobrevive a qualquer matiz governamental.

Uma admiração que atravessa presidentes e ministros. Fica acima de questões ideológicas, partidárias e políticas. Se nos governos Lula e Dilma Rousseff as verbas destinadas para a confederação atingiram altas somas, chegando aos R$ 41 milhões do último ano pelo Ministério do Esporte e os R$ 60 milhões pelo Banco do Brasil, o governo Fernando Henrique Cardoso também deu demonstrações de entusiasmo. Em 2001, o então Ministério do Esporte e Turismo financiou uma segunda edição do livro do mandatário da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), “Esporte como Indústria: Solução para criação de riqueza e Emprego”, onde ele pontifica sobre gestão, transparência e lisura na administração. Um convênio (número 420429, originalmente 265/2001) de R$ R$ 64.099,36, saudado com ardor pelo responsável pela liberação, Carlos Melles, o ministro naquele momento.
Reprodução

Capa do livro 'O Esporte Como Indústria', de Ary Graça
Capa do livro de Ary Graça

O dinheiro público que pagou tal edição foi empregado com convicção pelo ministro. “Trata-se de um documento que deve servir de modelo para as outras entidades que dirigem o esporte brasileiro”, afirmou na época Carlos Melles. De acordo com reportagem da época, Lars Grael, que ocupava a Secretaria Nacional de Esportes, também saudou o exemplo da obra: “O documento mostra uma gestão transparente. E atitudes como a do Ary atendem exatamente às expectativas desse Ministério”, afirmou então Grael.

Louvado pela excelência, o trabalho virou parte do balanço entregue ao Ministério do Esporte e Turismo em 2001. Junto com o livro, foram anexados gráficos, projetos e um código de ética. Este último efusivamente comemorado como o primeiro do gênero no Brasil. No entanto, o que mais entusiasmou o titular da pasta, desmembrada em 2003 quando foi criado autonomamente o Ministério do Esporte, foi a existência de um parecer técnico de uma empresa de auditoria independente, recomendado também para outros ministérios por Carlos Melles. Na ocasião, noticiou-se que o ministro ficou “entusiasmado” com a qualidade do trabalho e com a auditoria independente.

Provavelmente se entusiasmaria hoje com a solução prometida pela CBV para o esclarecimento das denúncias de irregularidades por parte da entidade, que já deveria ter sido apresentada, de acordo com a data de cinco semanas anunciada após as primeiras publicações das reportagens, no fim de fevereiro: parecer técnico de uma empresa de auditoria independente contratada pela CBV.

O fato de uma auditoria independente verificar desde o ministério de Melles as contas da CBV, festejado e celebrado pelo titular naqueles anos, não impediu o mar de escândalos que se sucedeu na entidade nos últimos tempos. A série de reportagens “Dossiê Vôlei” revelou uma série de irregularidades na gestão da entidade ao longo dos anos. Desde contratos de prestação de serviços de representação e assessoria comercial com empresas ligadas a cartolas da CBV e abertas poucos dias antes da assinatura dos contratos, comissão por intermediação em cima de contratos assinados diretamente com o Banco do Brasil (BB) e recebendo porcentagem posteriormente a venda realizada diretamente, cartolas recebendo como pessoa física e também jurídica, recepções pagas pela CBV por festas na casa de Ary Graça para cartolas da Federação Internacional de Vôlei ( FIVB), licitações por sorteio vencidas por empresa que domina as negociações com a CBV, aumento desproporcional no gasto com serviços, marketing e assessoria de imprensa, e outras tantas negociações irregulares.

As dicas de Ary Graça sobre modelos de gestão não pararam no livro de 2001, pago com dinheiro público. Depois lançou ainda “Estratégia Empresarial, modelo de gestão vitorioso e inovador da Confederação Brasileira de Voleibol” e “Estratégia Vitoriosa de Empresa, segundo seus personagens”. Os últimos dois com apresentação de João Havelange, depois envolvido em escândalo de corrupção na Fifa, que resultou em renúncia, e um segundo prefácio do Ministro Orlando Silva, também envolvido posteriormente em escândalo de corrupção, que também resultou na sua renúncia. Assim como os autores dos prefácios do seus livros, Ary Graça também apresentou carta de renúncia na CBV após a eclosão dos escândalos.

Gazeta Press

Ary Graça
Ary Graça, então presidente da CBV

Beneficiário de dinheiro público na publicação do seu segundo livro, Ary Graça cultiva e recomenda a relação com governos. Na festa que promoveu em Angra dos Reis como anfitrião de cartolas da FIVB, em que a CBV, financiada majoritariamente por dinheiro do estado, gastou mais de R$ 500 mil, o dono da casa discursou aos convivas. “Os governos podem ser nossos melhores parceiros. Eles podem entender tecnicamente os nossos projetos e investimentos”. As dicas não ficaram por aí. No pronunciamento, feito antes da série de denúncias, recomendou zelo com a imagem de cada um. “Nossa imagem é essencial. Temos de investir internamente. É preciso usar métodos de governança corporativa, a fim de trabalhar honestamente e com transparência”, afirmou. Na sequência, deu conselhos sobre a construção da imagem de cada um. “Devemos permanentemente construir a nossa imagem da melhor maneira possível. Cuidadosa e continuamente trabalhar em nossa imagem, como uma flor, que, como uma coisa de beleza, precisa o melhor tratamento”, afirmou Ary Graça.

Questionado por esta reportagem sobre o financiamento da edição do livro em que Ary Graça dá lições de gestão e transparência, o Ministério do Esporte declarou que “O convênio foi celebrado entre o então Ministério do Esporte e Turismo e a Confederação Brasileira de Voleibol. O valor do convênio era de R$ R$ 64.099,36, sendo que R$ 49.999,36 foram repasses do Ministério, e R$ 14.100,00 de contrapartida. O objeto do convênio era viabilizar a segunda publicação do livro o “Esporte como Indústria: Solução para criação de riqueza e Emprego”. A prestação de contas foi aprovada pela pasta. Naquele ano de 2001, o Esporte e o Turismo integravam o mesmo ministério. Apenas em 2003, o Ministério do Esporte foi criado como órgão com a missão de fomentar ao esporte no país”.

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