25/06/2024

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Estrangeiros pedalam dos Estados Unidos ao Brasil para ver a Copa

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Verônica Mambrini Do UOL, em São Paulo.

Eles não estão preocupados com o preço das passagens de avião para ver os jogos da Copa. Nem em como conseguir descobrir como chegar nas cidades dos jogos de ônibus. Ike Manobla e Henry Flaig resolveram vir de São Diego, Califórnia, nos Estados Unidos, até o Brasil pedalando, para ver os jogos da Copa do Mundo.

Eles já estão há 5 meses na estrada e passaram pelo México, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá. “Eu tenho ingresso para os jogos dos Estados Unidos, contra Gana, Portugal e Alemanha. Vou passar por Natal, Manaus e Recife. Ike tem ingresso para um jogo em Cuiabá, Chile contra Austrália”, conta Henry. O trajeto planejado no Brasil segue o rio Amazonas, saindo do Peru e passando principalmente por cidades pequenas.

“Eu queria ir para a Copa do Mundo do Brasil desde que ela foi anunciada, há 5 anos. Não sei porquê, mas a paixão já estava dentro de mim anos antes de eu me comprometer a fazer essa viagem”, diz o americano descendente de alemães. O frio na barriga começou com a classificação dos Estados Unidos, que não foi fácil. “Fui ver um dos jogos classificatórios, contra Costa Rica, disputado num dia de tempestade de neve. Tinha tanta neve que não dava para ver o gol do outro lado do campo. Mais um jogo, contra o México, e qualificamos. Eu pirei: não só ia para o Brasil, mas ia ver minha seleção jogar”, empolga-se Henry.

A ideia original de Henry era fazer um mochilão, mas no meio tempo ele descobriu as viagens de bicicleta e se apaixonou. Conheceu o parceiro de viagem Ike, no curso de Turismo Sustentável, na Universidade do Estado do Colorado. Durante uma apresentação sobre formas alternativas de turismo, Henry comentou que pretendia ver a Copa do Mundo no Brasil de bike. “Ike ‘pirou’ na hora e falamos sobre a viagem depois da aula. Viajando de bike você tem a experiência completa. De avião e ônibus, você está tão rápido que perde a essência dos lugares.” O projeto virou o Sustainably South, algo como “Rumo ao Sul de forma sustentável”.

Como a viagem é frugal, os ciclistas não estão com medo da inflação dos serviços no Brasil, ligada à Copa. “Não somos turistas tirando duas semanas de férias do trabalho. Por algum tempo, viajar com orçamento baixo vai ser nosso estilo de vida”, conta. “Vamos ver quando chegarmos aí. Mas o transporte é por força humana e acampamos todas as noites”, conta Henry. “Muitas vezes pedimos para acampar no quintal e somos convidados para o jantar”, conta. A aventura inclui dormir em lugares estranhos, como florestas, praias, desertos, montanhas, beiras de rio, campos, bombeiros ou quartéis, igrejas, casas de família e prédios abandonados. “Já dormimos até em arenas, telhados e até numa estufa.”

Claro que a hospedagem inusitada rende momentos únicos. Na Nicarágua, os ciclistas ficaram em uma fazenda de leite e ajudaram na ordenha. “Nesse dia, esprememos leite fresco direto no café. Não dá para ter esse tipo de experiência se você só fica em hotéis.” Em Honduras, numa região muito pobre, alguém gritou do outro lado da estrada: “Querem uma cerveja?”. O rapaz que ofereceu a bebida convidou os dois para jantarem na casa da família dele. “A família ficou fascinada, olhando a gente montando a barraca no quintal. Tinham pouco, mas ofereceram o que podiam.” Por sorte, não passaram ainda por nenhuma situação difícil, embora tenham visto acidentes terríveis na estrada. No México, presenciamos um carro tombar na estrada e fomos parados 4 km à frente, acusados de ter causado o acidente. Os policiais saíram do posto armados e levou uns bons minutos argumentando até eles nos liberarem.” Hoje ele e Ike dão risada do incidente, mas na hora, o medo de ter que subordar a polícia ou apanhar de amigos do motorista não deu trégua.

Sobre Brasil, eles sabem pouco. “Sei que é o quinto maior país do mundo, e que a religião oficial é o futebol”, diverte-se Henry, que não está confiando que seu espanhol vá dar conta aqui e pretende aprender um pouco de português. Canhoto, ele costuma jogar de lateral esquerdo ou como zagueiro. Contrariando a impressão que se tem no Brasil de que o futebol não é muito popular nos Estados Unidos, ele segue a English Premier League, a Bundesliga e a Champions League e, em Colorado, torce pelo Colorado Rapids FC. “E quando os campeonatos europeus não estão rolando, eu acompanho o Brasileirão.”

Louco por Copa, já viu o Brasil em campo. “Estava na Alemanha em 2006, e vi Brasil e Croácia no Olympiastadion. Foi insano! Foi incrível ver estrelas como Ronaldinho e Kaká ao vivo”, conta Henry. Em 2010, ele estava morando na Alemanha, a trabalho, e deu sorte de pegar o mesmo fuso horário da África do Sul. “Depois do trabalho a gente sempre via os jogos mais importantes. Fiquei arrasado com a derrota dos EUA para Gana. Por outro lado, deu para curtir as vitórias da Alemanha até a semi-final”.

A viagem já incluiu um trecho de veleiro. No Panamá, Henry e Ike foram até o porto e começaram a trocar ideia com os marinheiros locais para tentar conseguir uma carona até a Colômbia em troca de trabalho no veleiro. “Mas a 250 milhas do Panamá o motor pegou fogo e o navio começou a encher de água”, conta Henry. Eles tiveram que abandonar o navio e foram resgatados por um petroleiro indiano. “Com isso, nos atrasamos em algumas semanas. Acabamos tendo que pegar um avião para Quito, senão ficaríamos atrasados demais.”

Mesmo o atraso não deixou a viagem mais apressada. Sempre dá tempo de uma peladinha no meio do caminho. “No México, entramos na partida oficial de domingo dos times de uma cidadezinha no litoral. Os mexicanos eram mais rápidos e perdemos de 2×0, mas ganhamos cerveja das duas torcidas. Isso mostra um pouco como o futebol é capaz de unir pessoas.” De quebra, eles levam uma bola para poder jogar onde estiverem. “Claro que às vezes estamos tão cansados do pedal que nem pensamos em jogar.”

Embora os gringos não conheçam oficialmente o “jeitinho brasileiro”, é nele que estão confiando para se virar por aqui. “Tenho certeza que na hora as coisas vão se resolver. Quem sabe um leitor aí queira nos hospedar?” Otimistas com a equipe americana, chutam que ela tem chance de vencer a Copa. “Os EUA estão num grupo interessante, em que qualquer um dos times têm chance de ir para a próxima fase. Mas se formos desclassificados, tudo bem. Ser torcedor é paixão, é isso mesmo. Ou você é ou não é, não dá para fingir. E daí que não somos favoritos? O importante é que estou fazendo a viagem da minha vida para ver essa Copa, e vou comemorar perdendo ou ganhando. Estou louco para chegar no Brasil.”

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