22/07/2024

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Briga com Juvenal é mais séria do que parece. Aidar já está isolado. Entenda o fato.

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Guilherme Palenzuela Do UOL, em São Paulo.

Carlos Miguel Aidar com seus pares e apoiadores na última eleição.

Na mesma entrevista à “Folha de S. Paulo” em que o presidente do São Paulo Carlos Miguel Aidar detonou o antecessor Juvenal Juvêncio, seu padrinho e aliado na eleição de cinco meses atrás, ele também afirmou que vai tirar do papel a reforma do Morumbi, com cobertura e tudo. Mas não vai. As palavras de Aidar iniciaram profunda desestabilização política no São Paulo a partir desta quarta-feira, e a obra do Morumbi serve de exemplo: para modernizar o estádio, Aidar precisa da aprovação do conselho deliberativo, algo que, depois das intensas críticas a Juvenal, é praticamente impossível de acontecer. O São Paulo rachou politicamente e agora passará por processo de instabilidade que não via há pelo menos dez anos.

Em abril de 2012, dois anos antes de Aidar ser eleito presidente do São Paulo, os patronos do clube Laudo Natel e Manoel Raymundo Paes de Almeida sugeriram que Juvenal Juvêncio ganhasse um busto em homenagem aos serviços prestados ao clube. A sugestão foi colocada em votação no conselho deliberativo e, mesmo num momento em que o futebol não ia bem, Juvenal conseguiu. Teve o busto aprovado por unanimidade, rigorosamente nenhum voto contrário. Nada mais simbólico: uma escultura da própria face a ser eternizada com anuência de todos os membros do conselho do clube. O exemplo mostra que ninguém na história do São Paulo governou com tanto controle e estabilidade como Juvenal Juvêncio.

Por isso, comprar uma briga com personagem tão estimado está longe de ser um processo fácil para Aidar. Juvenal já respondeu a Aidar: nesta quarta-feira, irritou-se profundamente com as palavras que ouviu daquele que escolheu para sucede-lo e se reuniu com aliados em sua casa durante a tarde, preparando resposta. Ela veio à noite, em uma carta que rebateu as críticas e ainda apontou para o sucessor a culpa pelo aumento das dívidas do clube. Veja, abaixo, como o atrito com Juvenal bloqueia ações e atrapalha a gestão de Aidar.

Parte da diretoria se volta contra

Na tarde de quarta-feira, enquanto Juvenal Juvêncio decidia uma estratégia de responder Aidar, membros do alto escalão da diretoria do São Paulo procurados pela reportagem relataram irritação pelas palavras ditas por Aidar à “Folha de S. Paulo” e prometeram cobrar uma explicação do presidente.

Na atual diretoria de Aidar estão diversos dirigentes que trabalharam durante anos com Juvenal Juvêncio. Os mais próximos do ex-presidente estão em cargos importantes, apesar de não fazerem parte do futebol – Ataíde Gil Guerreiro, vice do departamento, é braço-direito de Aidar. Perdendo a confiança destes aliados de Juvenal, Aidar estará comprometido. Se não contornar a situação, verá dirigentes entregarem cargos ou terá que, ele próprio, iniciar uma reforma.

Entre dirigentes do São Paulo, há aqueles que se incomodam por devoção a Juvenal Juvêncio e aqueles que ficaram decepcionados pela maneira como o presidente expôs publicamente o que pensa sobre a administração do clube. O consenso, a despeito dos poucos correligionários de Aidar, é que a entrevista tem efeito desastroso para o clube.

Quem elegeu Aidar aprovou busto de Juvenal

Juvenal Juvêncio teve de decepcionar seu maior aliado histórico, Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, que esperava ser apontado como candidato à sucessão em abril de 2014. O ex-presidente, com medo de perder a eleição para Kalil Rocha Abdalla e Marco Aurélio Cunha, apostou em Carlos Miguel Aidar. Apontou, então, para todos os seus aliados, que aquele era o nome a ser votado. E assim foi: Aidar venceu numa eleição sem rival – a oposição, derrotada, desistiu do pleito na reta final, horas antes da votação – com 95% dos votos.

Todos esses que votaram em Aidar apoiavam Juvenal Juvêncio. E a história do busto serve de exemplo: Juvenal provocou certa adoração dentro do cenário político do clube. Algo como o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, figura pela qual o próprio Juvenal Juvêncio cultivou admiração. O conflito na questão é óbvio: o conselheiro que votou em Aidar fez isso, inicialmente, a pedido de Juvenal. Agora, vê o líder anterior em choque com o atual.

Presidente precisa do conselho para mudanças

Aidar precisa do conselho para governar. Ao dizer que vai reformar o Morumbi e colocar em prática a quase utópica cobertura no estádio, o presidente parece não perceber o efeito das outras palavras que também proferiu. Não há Morumbi sem apoio do conselho.

No fim de 2013, Juvenal sofreu os primeiros sinais de enfraquecimento político quando a oposição, com Kalil Rocha Abdalla e Marco Aurélio Cunha, conseguiram barrar a votação da cobertura do Morumbi.

Aidar também precisará da aprovação do conselho deliberativo do São Paulo caso pretenda fazer mudanças no estatuto social do clube, para tentar governar de forma mais estável. Hoje Leco, aliado de Juvenal por tantos anos, é o presidente do conselho.

Instabilidade à vista

Da mesma forma, não há estabilidade política se o presidente não conseguir controlar a maioria do conselho. Caso emerjam reações políticas em oposição de forma organizada, a gestão será bombardeada internamente.

No Brasil, a margem de erro para esse tipo de instabilidade é pequena ou quase nula: qualquer clube que passa por momento sem estabilidade política sofre no futebol. Palmeiras e Vasco, rebaixados nos últimos anos, são os maiores exemplos.

E a reeleição?

Carlos Miguel Aidar não poderá fazer pouco caso da instabilidade política pelo atrito com Juvenal Juvêncio porque ainda tem uma eleição para disputar. Se nada mudar, tentará a reeleição em 2017 – o próprio Aidar já falou em diferentes momentos que será “presidente pelos próximos seis anos”. Para que isso aconteça, no entanto, já precisa começar a reforma política para construir aliados e não depender da base de Juvenal.

Mal-estar entre funcionários

Os mesmos dirigentes que criticam Aidar por ter escancarado o atrito com Juvenal também se mostraram chocados pelo mal-estar criado pelo presidente entre funcionários do clube. Na entrevista, Aidar afirmou que hoje o São Paulo tem 950 empregados, mas que poderia ser tocado por apenas 95, como forma de criticar o modo de gestão de Juvenal, apontando folha de pagamento inchada. O exagero acabou apontando que há 855 funcionários sem utilidade trabalhando no clube.

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