25/05/2024

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Cifras milionárias das Olimpíadas de Inverno escondem ‘limpeza étnica’ do Império Russo

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Uma história de genocídio e diáspora fica escondida sob os altos valores investidos para a realização das Olimpíadas de Inverno de 2014. O governo russo gastou R$ 100 bilhões para ser sede da competição que começa nesta sexta-feira e, ao mesmo tempo, ignorou os protestos pela escolha da cidade de Sochi para abrigar os atletas.

Sochi é uma das cidades mais importantes da Circássia, extinto país que travou uma batalha com o Império Russo em 1864. O resultado disso foi milhões de circassianos mortos em uma história que não é contada em livros, mas que motivaram a organização de um movimento para impedir a realização dos Jogos por causa do massacre de 150 anos atrás.

Como os relatos de um dos maiores genocídios da história da Europa Moderna não são encontrados em museus e muito menos retratados em filmes famosos, um grupo denominado “No Sochi 2014” (não a Sochi 2014, em inglês) tratou de criar debates ao redor do mundo para buscar simpatizantes em torno da causa, mas não sensibilizou o Comitê Olímpico Internacional sobre sua causa.

Um dos capítulos do massacre de 1864 aconteceu em uma região montanhosa próxima ao Mar Negro, que mais tarde receberia o nome de Krasnaya Polyana. Ao tentar regressar à sua terra natal, uma remanescente tribo da Circássia sofre uma emboscada elaborada pelo exército russo que dá um trágico fim aos planos dos nativos, resultando em mais um violento conflito.

Mais tarde, naquele mesmo 1864, líderes circassianos se veem obrigados a assinar termos de lealdade e rendição ao Império Russo. Após mais de 100 anos de resistência e sangrentas batalhas, chegava ao fim a guerra entre Rússia e a então extinta Circássia.

O conflito entre os dois países faz parte da trajetória dos russos na conquista do Cáucaso, região que se estende entre o Mar Negro e o Mar Cáspio e onde se situava o território circassiano. O fim da guerra culminou com a anexação da Circássia ao Império Russo e a devastação de sua população nativa. Dados históricos divergem na contagem de vítimas, mas estima-se que entre 1 e 1,5 milhão de circassianos perderam a vida nos conflitos.

Como se o número não fosse assustador o suficiente, aqueles que sobreviveram foram obrigados a deixar seus vilarejos e casas e migrar para o Império Otomano através do Mar Negro, uma dispersão que se estendeu até 1914. Muitos desses sofreram com doenças, fome e frio e nunca chegaram ao destino. Entre o genocídio e a diáspora, mais de 90% da população da Circássia havia desaparecido.

Apenas 8% dos descendentes circassianos, comumente chamados de adiguésios, vivem atualmente na região da antiga Circássia. Muitos encontraram ou encontram dificuldades quando tentam regressar do exílio ao qual seus ancestrais foram submetidos.

O governo russo nunca reconheceu a “limpeza étnica” praticada na Circássia, para a revolta dos pouco mais de 700 mil circassianos ao redor do mundo. O governante que mais se aproximou disso foi Bóris Yeltsin, em 1994, ao declarar que a resistência dos circassianos às forças czaristas foi legítima. Nem de perto suficiente para essa nação sem território.

Exatos 150 anos depois, na mesma Krasyana Polyana – que em português significa “Clareira Vermelha” em virtude do sangue que ali foi derrubado – atletas se preparam para as competições de esqui das Olímpiadas de Inverno de Sochi 2014. Sepulturas deram lugar a luxuosos resorts e modernas pistas, transformando o local em um verdadeiro paraíso para praticantes de esportes na neve, incluindo o presidente Vladmir Putin.

A realização dos Jogos Olímpicos de Inverno na região é tida como um verdadeiro ultraje à memória do povo da Circássia. Desde o momento em que Sochi foi escolhida para sediar o evento, em 2007, diversas instituições de circassianos espalhados pelo mundo e simpatizantes da causa se organizaram em um movimento único para impedir a realização dos jogos, através de petições, protestos, debates em congressos e documentos enviados ao Comitê Olímpico Internacional.

A agenda do “No Sochi 2014” incluiu manifestações nos Jogos Olímpicos de Inverno em Vancouver 2010 e Londres 2012. “Como você reagiria à seguinte ideia: ‘Jogos Olímpicos de Auschwitz 2020′ ?”, era uma das reflexões que o grupo propunha, em referência aos campos de concentração idealizados pelo governo de Adolf Hitler que foi considerado um dos símbolos do nazismo.

Com a chegada de 2014 e a inevitável realização dos Jogos Olímpicos em Sochi, a principal meta do movimento, agora chamado “Know Sochi”, é trazer à tona a sombria e desconhecida história que envolve Sochi e a Circássia. A proposta do grupo é arrecadar fundos para a confecção de kits que serão entregues a atletas, contendo documentos históricos, adesivos e uma boina similar às usadas pelos circassianos.

Entre polêmicas envolvendo o orçamento do evento (com cifras que superam os R$100 bi Sochi 2014 são as Olimpíadas mais cara da história), censura a manifestações LGBT, denúncias de corrupção, violação de direitos humanos, trabalhistas e ambientais, a voz de um povo quase extinto tenta ser ouvida. Se há 150 anos a Circássia resistia bravamente à superioridade econômica e militar do Império Russo, o silêncio e o anonimato são hoje seus principais inimigos.

 

Fonte: Espn

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